A Narrativa Que Nasce da Ferida
A mente humana tenta dar sentido ao que acontece. Quando algo dói muito, ela procura uma explicação. Às vezes, essa explicação ajuda. Outras vezes, aprisiona. Depois de uma experiência dolorosa, a pessoa pode construir narrativas como: Eu sou difícil de amar. Eu não posso confiar. Eu sempre sou deixado. Eu nunca sou escolhido. Eu não sou suficiente. Eu estrago o que é bom. Essas frases parecem conclusões. Mas muitas vezes são interpretações feitas a partir de uma ferida. E interpretações feitas na dor precisam ser examinadas. Porque a dor fala alto. Mas nem sempre fala com precisão. Ela generaliza. Transforma um acontecimento em regra. Transforma uma pessoa em todas. Transforma uma fase em destino. Transforma uma queda em definição. Essa é a forma como a narrativa ferida se consolida. Primeiro, algo acontece. Depois, a pessoa sofre. Depois, tenta explicar o sofrimento. Depois, cria uma conclusão sobre si, sobre os outros ou sobre a vida. Com o tempo, essa conclusão começa a parecer verdade. E, quando parece verdade, passa a orientar escolhas. Se acredito que ninguém permanece, posso me afastar antes que alguém vá embora. Se acredito que sempre falho, posso evitar tentar. Se acredito que não sou suficiente, posso aceitar menos. Se acredito que toda aproximação termina em dor, posso viver fechado. A narrativa cria comportamento. O comportamento confirma a narrativa. E o ciclo se fortalece. Por isso, a consciência precisa perguntar: Essa história que conto sobre mim nasceu da verdade inteira ou nasceu da ferida?
Extraído de
Volume I — Consciência
Capítulo 5 — Dor Não É Identidade