Nenhuma história tem um único autor

Insistir na existência de um culpado absoluto é como tentar ler um livro complexo e atribuir toda a sua trama a um único personagem. Ignoramos o autor, o contexto histórico em que a obra foi escrita, as influências literárias e as inúmeras circunstâncias que tecem a narrativa. Da mesma forma, nos eventos da vida, nenhuma pessoa age no vácuo. Cada ação é o resultado de uma confluência de histórias, condições, medos e percepções que raramente são visíveis na superfície.

Adotar essa visão sistêmica não significa absolver ou desculpar atos prejudiciais. Significa, antes, amadurecer a nossa percepção para além da dualidade infantil do 'bom' e do 'mau'. É reconhecer que somos todos parte de uma ecologia de relações, onde um movimento reverbera e provoca reações em cadeia. O 'culpado' que elegemos é, muitas vezes, apenas o portador do sintoma mais visível de um desequilíbrio que é compartilhado, ainda que em diferentes graus.

O crescimento, neste âmbito, é um exercício de ampliar o foco. Ao invés de buscar o autor singular do nosso descontentamento, somos convidados a observar a dança das interdependências. Passamos da pergunta 'Quem fez isso comigo?' para 'O que está acontecendo entre nós?'. Essa mudança de perspectiva dissolve a ilusão do controle unilateral e nos abre para a possibilidade de uma cura que não se baseia na punição, mas na compreensão da teia que nos conecta.

Extraído de

Volume I — Consciência

Capítulo 3 — A Ilusão da Culpa

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