A memória da ferida não é a sentença da vida.
A vida nos apresenta fatos: uma perda, uma traição, um fracasso. São eventos que se inscrevem em nossa memória, pontos de inflexão em nossa biografia. Diante deles, contudo, há uma camada mais profunda de liberdade: a de escolher a narrativa que construiremos a partir desses fatos. O acontecimento é a tinta; nós somos os autores da história que se segue.
Identificar-se com a dor é permitir que um único capítulo dite o desfecho de todo o livro. É transformar um acontecimento doloroso no eixo central da nossa identidade, relendo-o continuamente até que ele pareça ser a única verdade sobre nós. Essa narrativa, repetida em silêncio, age como um filtro, colorindo todas as novas experiências com as tonalidades do passado e nos aprisionando em um roteiro de sofrimento conhecido.
Assumir a responsabilidade pela própria vida é, em grande parte, assumir o papel de editor da nossa história interior. Não se trata de apagar ou de negar os capítulos difíceis — eles contêm a sabedoria que só a adversidade pode ensinar. Trata-se de contextualizá-los. A dor foi uma cena, talvez a mais intensa de todas, mas não precisa ser o tema principal. A liberdade reside em dar a ela seu devido lugar na cronologia, e então, com a caneta em mãos, começar a esboçar o próximo parágrafo, um que fale não apenas de onde estivemos, mas de para onde, consciente e deliberadamente, escolhemos ir.
Extraído de
Volume I — Consciência
Capítulo 5 — Dor Não É Identidade