Quando o roteiro se fixa no trauma
Nossa vida é uma narrativa em constante escrita. Cada experiência é uma cena, cada decisão, uma virada no enredo. Uma dor aguda, um evento de ruptura, funciona como um poderoso ponto de virada, que inegavelmente transforma o protagonista. O perigo não está no evento em si, mas na possibilidade de que o autor — nós mesmos — decida que a história termina ali, transformando o resto da existência em um longo epílogo sobre aquele único acontecimento.
Quando isso ocorre, o personagem para de evoluir. Seu diálogo interno se torna repetitivo, orbitando a injustiça, a perda ou o fracasso. Suas ações deixam de ser motivadas pelo desejo de descoberta e passam a ser guiadas unicamente pela necessidade de evitar uma trama semelhante. A narrativa, que poderia ser uma jornada de aventura, aprendizado ou redenção, cristaliza-se em um drama estático. O personagem não está mais vivendo, está apenas representando o papel daquele que foi ferido.
Assumir a responsabilidade pela própria história é o ato de virar a página. Não se trata de apagar o capítulo doloroso — ele é parte da densidade do personagem —, mas de se recusar a fazer dele o clímax definitivo. É reconhecer-se como autor e protagonista, com o poder de introduzir novos personagens, explorar novos cenários e, o mais importante, dar um novo significado à jornada. A dor pode ter sido a assinatura de um capítulo, mas não precisa ser o título de todo o livro.
Extraído de
Volume I — Consciência
Capítulo 5 — Dor Não É Identidade