Sustentar o passo no nevoeiro da escolha
A decisão de se afastar, de mudar um rumo ou de encerrar uma dinâmica, raramente nasce de uma visão clara do futuro. Ela costuma brotar no escuro, como um movimento interno que não pode mais ser adiado, uma resposta silenciosa a um limite que foi atingido. Escolhe-se não porque se sabe para onde vai, mas porque já não é mais possível permanecer onde se está. Não há promessa de um porto seguro, apenas a intuição de que o barco precisa deixar o cais que já apodreceu.
A verdadeira responsabilidade se revela depois, no ato de sustentar essa navegação sem mapa. É a quietude de bancar o vazio que a escolha cria, resistindo ao impulso de preenchê-lo com velhos padrões ou de buscar aprovação para o passo dado. É o momento em que a autoria da própria vida se firma não no acerto, mas na permanência; não na chegada, mas na capacidade de atravessar o desconhecido que a própria liberdade inaugurou.
Extraído de
Volume II — Responsabilidade e Escolha
Capítulo 7 — Afastamentos Necessários