Solos férteis ou terrenos esgotados

Uma falha pode ser como uma semente ou como uma rocha. Lançada em um solo interior fértil, a experiência do erro decompõe-se, libera nutrientes de aprendizado e alimenta o crescimento de novas posturas. Ela se integra à paisagem da nossa vida, fortalecendo o terreno para futuras colheitas de sabedoria. Nesse ecossistema, a culpa é um fenômeno transitório, parte do processo natural de decomposição e renovação.

Quando a culpa se transforma em identidade, no entanto, o cenário muda. O erro deixa de ser matéria orgânica e se transforma em rocha estéril. A mente retorna a ele obsessivamente, tentando extrair vida de onde não há mais. Esse esforço esgota o solo. A energia que poderia nutrir o presente é drenada para manter viva a memória da aridez. O terreno torna-se incapaz de sustentar qualquer novo crescimento, pois está permanentemente ocupado pela sombra daquela pedra.

O trabalho de recomeçar por dentro envolve, fundamentalmente, uma ecologia da consciência. É avaliar a qualidade do nosso solo interior. Estamos permitindo que as experiências — mesmo as dolorosas — se transformem em húmus para o futuro? Ou estamos compactando o terreno com o peso de culpas petrificadas? A escolha não é esquecer a rocha, mas reconhecer que sua função não é ser carregada para sempre. É decidir cultivar um jardim ao redor dela, um jardim que só pode florescer quando paramos de devotar toda a nossa água a uma pedra.

Extraído de

Volume I — Consciência

Capítulo 3 — A Ilusão da Culpa

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