Sobre fissuras e alicerces

Quando uma fissura aparece repetidamente na mesma parede, podemos passar a vida a preenchê-la com massa e a pintá-la de novo. A cada vez, o reparo consome tempo, material e disposição. A parede parece intacta por um tempo, mas a rachadura retorna, porque a sua causa não está na superfície, mas na fundação instável do edifício.

Em nossa vida interior, o processo é análogo. O cansaço, a irritabilidade, a procrastinação — essas são as fissuras. A energia que empregamos para "consertar" nosso humor com distrações, para forçar a produtividade ou para mascarar nossa insatisfação é a massa corrida que aplicamos incessantemente. Estamos tão ocupados com o reparo estético que nos esquecemos de inspecionar os alicerces.

O verdadeiro trabalho de transformação convida a descer ao porão da nossa consciência. Exige a coragem de parar de remendar a superfície e perguntar: que crença instável, que medo não resolvido, que incongruência fundamental está causando esta tensão estrutural? A energia gasta em reparos intermináveis é a mesma que, se reinvestida, poderia fortalecer os alicerces. E uma vez que a base é sólida, a estrutura não apenas para de rachar, como se torna capaz de suportar novos andares.

Extraído de

Volume I — Consciência

Capítulo 2 — O Peso da Repetição

Compartilhe esta reflexão