Saber o Nome da Dor Não a Silencia

A clareza de um conceito, depois das cinzas, pode ser um alívio momentâneo. Reconhecer em palavras a dinâmica da própria fragilidade, identificando como a queda externa apenas expôs a estrutura interna que já era precária, parece nos dar algum controle. É um ato de nomear o caos, de traduzir a dor em pensamento, de encontrar uma ordem intelectual para o desmoronamento.

Viver, no entanto, acontece em uma camada mais profunda, onde as palavras não chegam com a mesma força. O corpo não se convence com a mesma facilidade da mente. A compreensão de que uma perda revelou uma dependência não apaga a sensação do vazio ou o tremor da ausência. Existe uma distância, por vezes imensa, entre o mapa que estudamos e o território de cinzas que nossos pés precisam atravessar, um passo de cada vez, sentindo a incerteza a cada apoio.

Extraído de

Depois das Cinzas

Capítulo 6 — O Que Desaba Fora Revela o Que Existe Dentro