Retirar-se da mesa de negociação com o passado

Passamos uma parte considerável da vida sentados a uma mesa de negociação com nossos próprios fantasmas. Discutimos com o mesmo erro, tentando extrair dele uma nova lição, um novo resultado. Apresentamos argumentos, justificativas, romantizamos o desgaste na esperança de que, desta vez, o padrão se comporte de maneira diferente. Esse diálogo infindável é a essência do cansaço existencial: uma guerra de atrito contra nós mesmos.

Força, nesse contexto, é reconhecer a esterilidade dessa negociação. É entender que certos padrões não oferecem termos de rendição; eles existem para se perpetuar. Insistir não é virtude quando o objeto da insistência é o próprio sofrimento. A verdadeira força está no ato de se levantar da mesa. Um ato que não requer palavras, apenas a decisão silenciosa de não mais participar do debate. Você não precisa vencer o argumento contra o erro; precisa apenas retirar a sua presença do diálogo.

Essa retirada é libertadora. Ela nos devolve o tempo e a energia que eram consumidos na tentativa de consertar o que não nos cabia. Deixar de negociar com o mesmo erro não garante imunidade a novas falhas, mas assegura que o nosso crescimento não será mais refém das mesmas paisagens. Significa que, ao invés de tentar redesenhar um mapa antigo, finalmente nos permitimos explorar um território desconhecido, onde a vida pode, enfim, apresentar novas possibilidades.

Extraído de

Volume I — Consciência

Capítulo 2 — O Peso da Repetição

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