Quando o Dedo Apontado se Recolhe

A busca por culpados é um ruído que adia o encontro com o real. Enquanto se aponta para fora — para o outro, para o tempo, para o acaso —, a vida adulta fica em suspensão. É um escudo frágil contra o desconforto de admitir a própria parte na trama, por menor que seja. Manter-se nesse lugar é recusar a posse da própria história, entregando seu roteiro a personagens secundários e a cenários que parecem imutáveis.

O verdadeiro ponto de virada não é ruidoso. É o momento em que o dedo apontado se recolhe, não por fraqueza, mas por esgotamento de uma narrativa que não serve mais. Nesse silêncio, a pergunta muda. Deixa de ser ‘quem fez isso comigo?’ e se torna ‘o que farei com isso que é meu?’. É aqui que a responsabilidade deixa de ser um peso e se torna um chão. O chão firme, ainda que áspero, sobre o qual se pode, finalmente, dar o próximo passo.

Extraído de

Volume II — Responsabilidade e Escolha

Capítulo 12 — A Responsabilidade Pelas Consequências