Quando a Vítima Narra a Escolha
A necessidade de apresentar cada escolha a um tribunal externo é um refúgio sutil. Neste lugar, a responsabilidade final parece nunca ser nossa; se a decisão for mal recebida, a culpa recai sobre a incompreensão alheia, e não sobre o peso da nossa autoria. A explicação incessante se torna o enredo de uma vítima que apenas buscava ser entendida, uma fuga da tarefa adulta de simplesmente ser o autor.
Nesse papel, há um conforto particular: o de não precisar ocupar o vértice, por vezes solitário, da própria vida. A justificação contínua é o ruído que nos distrai do silêncio que acompanha a verdadeira posse de si. Assumir a autoria é sustentar um caminho sem a necessidade de plateia ou aprovação, apenas com a inteireza de quem responde por seus próprios passos, inclusive pelo desconforto que eles podem causar nos outros.
Extraído de
Volume II — Responsabilidade e Escolha
Capítulo 14 — Não Se Explicar para Todos