Quando a memória se torna o arquiteto do presente.

Esse arquiteto interno é meticuloso. Ele filtra as interações, seleciona as percepções e edita as experiências para que confirmem sua premissa fundamental. Um silêncio torna-se prova de abandono; um olhar distraído, um atestado de desvalorização. Vivemos, então, não no momento presente, mas em um contínuo eco da dor original, construindo incessantemente ao nosso redor as paredes que já esperamos encontrar. A defesa torna-se o próprio cárcere, e a familiaridade da dor, um estranho tipo de conforto.

Interromper esse ciclo é um ato sutil de insubordinação interior. Consiste em observar as plantas do arquiteto antes de aprovar a construção. É criar um espaço de quietude entre o que acontece e a história que nossa mente imediatamente oferece sobre aquilo. Nesse espaço, reside a liberdade de questionar: esta interpretação serve ao meu presente ou apenas perpetua o meu passado? É nesse ínterim que descobrimos que a memória pode ser uma visitante, não a moradora permanente que dita as regras da casa.

Extraído de

Volume I — Consciência

Capítulo 5 — Dor Não É Identidade