Quando a dor vira morada

Construímos para nós abrigos internos, estruturas psíquicas feitas das nossas memórias e crenças. Uma dor profunda, quando não processada, pode deixar de ser apenas um cômodo visitado em momentos de reflexão e se tornar a própria fundação da casa. Quando isso acontece, cada nova escolha, cada nova relação, é como um móvel que precisa caber na arquitetura predeterminada pelo sofrimento. As janelas passam a ter grades, não por uma ameaça real, mas pela memória de uma invasão passada. As portas se fecham com mais facilidade do que se abrem.

A vida dentro dessa morada se torna segura, porém limitada. O mundo lá fora é percebido menos como uma paisagem a ser explorada e mais como um risco permanente à integridade da estrutura. Tudo é filtrado pela pergunta: 'Isso pode me machucar de novo?'. O instinto de proteção, essencial para a sobrevivência, transforma-se em um carcereiro sutil que nos impede de viver.

Recomeçar por dentro envolve, primeiramente, a consciência de que somos o arquiteto e o morador dessa casa. Não se trata de demolir o que foi construído — pois a história que nos compõe merece respeito —, mas de abrir as janelas, derrubar algumas paredes internas e, talvez, construir uma varanda. É o ato de reconhecer que a segurança da reclusão tem um custo alto demais: a própria expansão da vida.

Extraído de

Volume I — Consciência

Capítulo 5 — Dor Não É Identidade

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