Os cenários mudam, o personagem permanece

Temos uma confiança quase ingênua na capacidade transformadora do ambiente externo. Acreditamos que um novo emprego, uma nova cidade ou um novo relacionamento têm o poder de inaugurar um novo eu. Embarcamos na mudança com a esperança de que o cenário renovado exija de nós um papel diferente, e que, por força da nova paisagem, nos tornaremos outra pessoa. Essa é a ilusão de que a vida se reorganiza de fora para dentro.

No entanto, o que frequentemente acontece é que levamos conosco o mesmo eixo interno para o palco recém-montado. Mudamos de empresa, mas a forma como nosso corpo se contrai diante de uma crítica é a mesma; iniciamos um novo amor, mas a narrativa silenciosa de não sermos suficientes nos acompanha como uma sombra. O problema fundamental não está na peça, mas no fato de que o ator principal insiste em interpretar o mesmo personagem, com as mesmas falas e os mesmos gestos automáticos, independentemente do roteiro.

O verdadeiro recomeço não acontece quando o cenário muda, mas quando o personagem se torna consciente de si mesmo. A mudança duradoura surge da investigação interna: qual é o roteiro que venho repetindo sem perceber? Que crenças e mecanismos de defesa carrego em minha bagagem emocional a cada nova jornada? É um trabalho menos espetacular do que uma grande mudança externa, pois ocorre no silêncio da auto-observação. É o processo de reescrever o diálogo interno para que, quando o cenário de fato mudar, exista um personagem novo e autêntico pronto para habitá-lo.

Extraído de

Volume I — Consciência

Capítulo 1 — O Começo é Interno

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