O valor próprio não opera em um sistema de dívidas e créditos.
Internalizamos uma lógica de mercado para a nossa essência, tratando o valor pessoal como uma moeda que pode ser gasta ou perdida. O erro se torna um débito numa contabilidade invisível, e passamos a vida tentando compensá-lo através de um esforço excessivo, de uma gentileza que não é genuína, de uma busca incessante por validação. Vivemos como se estivéssemos sempre devendo algo a alguém, ou a nós mesmos.
Essa visão transacional sabota a verdadeira intimidade. Se nos percebemos como 'endividados', não conseguimos receber afeto de forma pura; qualquer gesto de amor ou respeito é interpretado como um pagamento, um ato de caridade ou uma concessão temporária. As relações deixam de ser encontros e se tornam arenas de avaliação, onde tememos que, a qualquer momento, nosso 'crédito' se esgote.
A verdadeira liberdade interior emerge quando abandonamos essa contabilidade. Nosso valor não é uma mercadoria sujeita à inflação do erro ou à deflação do julgamento. Ele é uma constante, uma presença que simplesmente é. O trabalho não é 'recuperar' o valor perdido, mas sim desassociar a ação — o erro — do ser — a dignidade. É reconhecer que nosso valor não está em jogo, nunca esteve.
Extraído de
Volume I — Consciência
Capítulo 3 — A Ilusão da Culpa