O Sossego Amargo de se Dizer Vítima
Existe um tipo sutil de abrigo na narrativa da fatalidade. Quando nos colocamos como o alvo passivo das circunstâncias ou das ações alheias, encontramos um lugar onde a complexa tarefa de escolher é suspensa. A responsabilidade é então transferida para o mundo, para o outro, para o destino. Nesse lugar, a dor pode ser real, mas o peso da autoria é convenientemente aliviado. É uma paz frágil, uma calma aparente construída sobre a renúncia de si mesmo.
A permanência nesse refúgio, no entanto, cobra o seu preço. Ao nos eximirmos de desenhar os próprios limites, permitimos que a vida seja escrita por mãos que não são as nossas. A queixa, ainda que legítima, torna-se a trilha sonora de uma existência vivida por procuração. Assumir a autoria não é sobre culpar-se, mas sobre reconhecer o poder silencioso que reside na decisão de dizer: “esta parte da história, daqui em diante, sou eu quem escreve”. É a troca do conforto paralisante pela liberdade inquieta de ser o responsável pelo próprio caminho.
Extraído de
Volume II — Responsabilidade e Escolha
Capítulo 19 — Posicionamento Não Negociável