O Silêncio dos Objetos ao Redor

Há um silêncio que antecede a compreensão. Nele, os objetos de uma casa continuam onde sempre estiveram, a luz da tarde entra pela mesma janela. Ainda assim, algo se desloca no centro da percepção. O olhar percorre o cenário familiar, mas já não o reconhece com a mesma intimidade. É a primeira camada de cinza que se deposita sobre a paisagem interna, um descolamento sutil entre o eu e o mundo que antes o continha.

Este é o limiar do depois das cinzas. Não o estrondo da queda, mas a quietude que se instala logo em seguida, quando a alma registra o vácuo antes que a mente consiga nomeá-lo. Não há ainda um caminho a ser reconstruído, apenas o reconhecimento de que o chão que se pisa mudou de matéria. Neste novo território, é preciso primeiro reaprender a respirar este ar mais denso, muito antes de se cogitar o próximo passo.

Extraído de

Depois das Cinzas

Capítulo 2 — O Primeiro Impacto da Perda