O silêncio de quem assume o ferimento

Deixar de terceirizar a dor é uma renúncia silenciosa. Não se trata de perdoar o mundo ou apagar a ofensa, mas de reconhecer que o eco do acontecimento agora mora dentro de si. Enquanto a responsabilidade pela ferida é do outro, a vida se torna um inventário de culpas e uma espera por reparações que talvez nunca cheguem. A dor se torna um argumento, uma identidade mantida por uma narrativa de injustiça que paralisa.

Ao assumir que o sentimento é seu, algo se move. A pergunta deixa de ser 'Quem me fez isto?' e passa a ser 'O que eu faço com isto que sinto?'. Essa mudança de eixo devolve a autoria. A dor, agora reconhecida como matéria própria, pode ser observada, compreendida e, sobretudo, cuidada. É um movimento adulto, desprovido de espetáculo, que troca o direito à queixa pela responsabilidade do caminho. Aqui, a liberdade não é a ausência de dor, mas a posse sobre a forma de carregá-la.

Extraído de

Volume II — Responsabilidade e Escolha

Capítulo 20 — Escolher Quem Você Se Torna