O refúgio perigoso da identidade conhecida

Existe um conforto sombrio na repetição. O padrão, por mais doloroso que seja, oferece um tipo de certeza: conhecemos o roteiro, o cenário, o desfecho. Essa previsibilidade pode ser confundida com segurança, um território familiar onde, ao menos, não há surpresas. Com o tempo, esse território deixa de ser um lugar que frequentamos e passa a ser quem acreditamos ser. O comportamento se funde à identidade numa declaração resignada: 'Eu sou assim'.

Essa fusão é o mecanismo de defesa mais eficaz do padrão. Uma vez que ele se torna 'quem eu sou', qualquer tentativa de mudança não é mais vista como uma libertação, mas como uma aniquilação. A mente resiste não por preguiça, mas por um instinto distorcido de autopreservação. Mudar significaria abandonar a única versão de si mesmo que se conhece, para se aventurar num vazio assustador de 'quem serei eu, sem isto?'. A dor conhecida parece, então, mais segura que a cura desconhecida.

A maturidade se revela na coragem de questionar essa identidade forjada pelo hábito. É a disposição para suportar a crise de não se reconhecer por um tempo, de caminhar no intervalo entre o 'eu' que se recusa a continuar sendo e o 'eu' que ainda não se tornou. 'Morar na queda' é se apegar a essa identidade limitante. Recomeçar por dentro é aceitar o luto por essa versão de si, abrindo mão do refúgio perigoso do conhecido para, finalmente, dar espaço à pessoa que se pode ser.

Extraído de

Volume I — Consciência

Capítulo 2 — O Peso da Repetição

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