O Refúgio da Inocência no Vínculo
Existe um refúgio sutil na narrativa do ressentimento. Atribuir ao outro a causa do nosso descontentamento é um ato que nos isenta de olhar para o ponto de partida: a escolha. A queixa sobre o que não recebemos mascara a pergunta fundamental sobre o que buscávamos preencher desde o início. Nesse papel de quem sofre a ação, de quem é lesado pela insuficiência alheia, a pessoa se torna personagem passiva de uma história que, secretamente, ajudou a escrever.
Assumir a autoria é abandonar esse lugar seguro e desconfortável. É admitir que muitas vezes não é o outro que falha em nos completar, mas nós que chegamos à relação já fragmentados, esperando que o vínculo opere um milagre que pertence à esfera do eu. Este é um movimento de maturidade silencioso, pois exige reconhecer o próprio vazio e a responsabilidade pelas expectativas que foram depositadas em ombros alheios. É trocar a suposta inocência da vítima pela coragem do autor.
Extraído de
Volume II — Responsabilidade e Escolha
Capítulo 18 — Relacionamentos Conscientes