O que se sente não define o que se é.

Existe uma distinção crucial, embora sutil, entre o estado e o traço. A dor, por mais avassaladora que seja, é um estado da consciência. É um clima que se instala, uma tempestade que toma conta do céu da nossa percepção e, enquanto dura, parece ser a única realidade possível. É a condição de 'estar' em sofrimento.

O aprisionamento começa quando este estado transitório se solidifica e se converte em um traço de identidade. É a passagem do 'estou sentindo dor' para o 'eu sou uma pessoa ferida'. O que era uma experiência se torna uma definição. O que era um verbo se torna um adjetivo permanente, uma etiqueta que carregamos e que usamos para nos apresentar ao mundo e a nós mesmos.

O caminho para a liberdade interior começa no cultivo de um observador silencioso, aquela parte de nós capaz de testemunhar a tempestade sem se tornar a própria tempestade. É a consciência que permite reconhecer: 'Uma parte de mim experiencia grande dor agora'. Nessa pequena lacuna entre o observador e a experiência, reside um poder imenso. É o poder de acolher e cuidar da parte que sofre sem que o todo se reduza a ela. É saber que o clima pode ser de chuva torrencial, enquanto a natureza essencial do céu, vasta e imutável, permanece intacta.

Extraído de

Volume I — Consciência

Capítulo 5 — Dor Não É Identidade

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