O Primeiro Gesto Depois das Cinzas

O depois das cinzas não começa com um plano de reconstrução, mas com a exaustão que se segue ao fogo. Quando o corpo ainda ressoa o impacto e a mente busca um ponto de apoio, instala-se um silêncio. É nesse vazio que o olhar pousa sobre a paisagem real, não para avaliar perdas, mas para reconhecer o que está posto: as cinzas, o espaço que se abriu, o objeto que inexplicavelmente resistiu. É o primeiro registro do novo chão.

Esse pousar do olhar é o embrião da responsabilidade e da escolha. Aqui, depois das cinzas, a responsabilidade não é a tarefa heroica de reerguer mundos, mas a presença mínima de registrar o que se vê. É a mão que, sem comando, afasta um detrito ou a atenção que se fixa na solidez de uma parede que ficou de pé. Este é o primeiro exercício de escolha: não a de fazer, mas a de estar. A de reconhecer o terreno sobre o qual, talvez, se possa voltar a caminhar.

Extraído de

Depois das Cinzas

Capítulo 10 — Responsabilidade e Escolha Depois do Impacto