O Ofício de Ser Si Mesmo

Existe um momento silencioso em que se abdica do conforto de apontar culpados — o passado, os outros, as circunstâncias. É um rito de passagem íntimo, quase imperceptível por fora, onde se reivindica a própria vida, não como um prêmio, mas como uma incumbência. Esse ato de assumir a autoria é solene. Ele traz consigo um peso, o peso das consequências, das renúncias, dos erros que não poderão mais ser terceirizados. É o fim da narrativa da vítima, não porque a dor não tenha existido, mas porque a identidade não se resumirá mais a ela.

Esse peso, no entanto, não é fardo, mas substância. É a gravidade que firma os pés no solo da realidade, em oposição à leveza frágil de uma vida à deriva. É nessa responsabilidade assumida que reside uma dignidade intransferível: a de ser o responsável pelo próprio caminho. Responder por si, pelas escolhas feitas e pelas que virão, é o que transforma a existência de um roteiro pré-escrito em uma página em branco. Uma página que não promete felicidade, mas devolve a caneta às mãos de seu único e verdadeiro autor.

Extraído de

Volume II — Responsabilidade e Escolha

Capítulo 20 — Escolher Quem Você Se Torna