O mapa que nos trouxe até aqui não precisa definir o destino.
As narrativas que construímos para dar sentido às nossas dores são como mapas antigos, desenhados para nos guiar por um território que, em algum momento, pareceu hostil e traiçoeiro. Cada linha traçada, cada anotação na margem — “perigo”, “terreno instável”, “não confie” — foi uma tentativa de sobrevivência. Olhar para esse mapa com gratidão é o primeiro passo da maturidade. Ele não foi feito para nos enganar, mas para nos proteger. Ele revela a nossa resiliência, os caminhos difíceis que fomos capazes de atravessar.
O problema surge quando o território muda, mas continuamos a usar o mapa antigo. O mundo, tanto o interno quanto o externo, está em constante fluxo. Insistir nas coordenadas do passado é forçar a realidade presente a se conformar com uma geografia que talvez não exista mais. É olhar para um campo aberto e, por hábito, procurar a sombra da montanha que um dia nos intimidou. É ver um gesto de aproximação e interpretá-lo com a desconfiança de uma antiga emboscada.
A jornada do recomeço interior não exige que queimemos o mapa. Pelo contrário, ela nos convida a arquivá-lo como um documento precioso de nossa história. Estudá-lo, compreendê-lo e depois, deliberadamente, guardá-lo. Com a consciência do presente como nossa nova bússola, podemos começar a cartografar a paisagem real que se estende à nossa frente, baseando-nos não na memória do perigo, mas na observação serena do que é.
Extraído de
Volume I — Consciência
Capítulo 5 — Dor Não É Identidade