O Espelho Depois da Queixa
O hábito de apontar o que o outro faz ou deixa de fazer é um lugar conhecido, um roteiro que drena a vida ao manter o foco sempre fora. Nesse espaço, a energia se esvai em esperar que o mundo e os vínculos mudem para que o nosso desconforto se acalme. É um movimento que adia a vida adulta, pois coloca a chave da própria paz no bolso de terceiros.
Mas há um instante de inflexão, um silêncio que chega não por resignação, mas por esgotamento da queixa. É o momento em que a pergunta muda de direção. Em vez de questionar a atitude alheia, a pessoa se volta para dentro e observa: qual é a minha parte na manutenção disso? O que minha presença, ou meu silêncio, estão sustentando aqui? A responsabilidade não surge como culpa, mas como a sóbria constatação da própria agência. É nesse ponto que a escolha deixa de ser uma teoria e se torna um ato, ainda que o primeiro ato seja apenas reconhecer a própria participação no que parecia ser obra do outro.
Extraído de
Volume II — Responsabilidade e Escolha
Capítulo 7 — Afastamentos Necessários