O eco do tribunal interno

Dentro de nós, muitas vezes se instala um tribunal silencioso. O medo do julgamento alheio é tão potente que o internalizamos, tornando-nos nosso próprio acusador, juiz e carrasco. A voz que nos condena, no entanto, raramente é nossa; é um eco distorcido de medos antigos, de expectativas que absorvemos, da possibilidade de rejeição que tanto nos assombra. É a antecipação da dor que nos leva a punir a nós mesmos, numa tentativa de controlar o inevitável, de mitigar o golpe antes que ele venha de fora.

A culpa, nesse cenário, ainda permite um diálogo. Ela questiona o ato: "O que pode ser feito para reparar?". Ela nos mantém no banco das testemunhas, capazes de argumentar, de contextualizar, de aprender. A culpa nos convida à responsabilidade, que é uma forma de movimento. A vergonha, por outro lado, é a sentença final e inapelável. Ela nos tira do diálogo e nos joga no isolamento da cela, convencendo-nos de que nossa natureza é o próprio crime.

Superar essa dinâmica não é sobre ignorar o erro, mas sobre dissolver o tribunal. É perceber que a única jurisdição que importa é a da consciência que busca evoluir. Implica em diferenciar a voz do medo da voz da sabedoria interior. A primeira grita sentenças para nos paralisar; a segunda sussurra perguntas para nos mover. O recomeço autêntico acontece quando trocamos o peso do martelo do juiz pela leveza da mão que se estende para si mesma, em um gesto de responsabilidade e perdão.

Extraído de

Volume I — Consciência

Capítulo 3 — A Ilusão da Culpa

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