O eco de um eu que já não existe

A narrativa que nos define é, com frequência, um eco. É a ressonância de vozes e eventos passados que, um dia, foram cruciais para a nossa sobrevivência emocional. Construímos defesas, criamos regras e adotamos papéis para navegar por águas que já não são as de hoje. A história do "eu preciso agradar" talvez tenha nascido em um ambiente onde o afeto era condicional; a do "eu nunca sou suficiente", em uma experiência de falha que se tornou marco zero da autoavaliação.

O perigo do eco é a sua familiaridade. Ele soa como a nossa própria voz, e nos acostumamos tanto à sua presença que deixamos de questionar sua validade. Continuamos a nos mover em um quarto escuro, tateando por móveis que já não estão mais lá, tropeçando em espaços vazios. Vivemos em resposta a um roteiro antigo, sem perceber que o cenário mudou, os outros atores seguiram em frente e nós mesmos já não somos a mesma personagem.

A revisão dessa narrativa interior não é um ato de confronto, mas de escuta atenta. É o trabalho sutil de distinguir o som presente da reverberação do passado. É reconhecer que a proteção de ontem pode ser a prisão de hoje. A maturidade reside nesta capacidade de agradecer ao velho mapa pelos caminhos que um dia ele nos ajudou a trilhar e, então, ter a coragem serena de desenhar um novo, mais alinhado com o território que de fato pisamos agora.

Extraído de

Volume I — Consciência

Capítulo 1 — O Começo é Interno

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