O cenário muda, o roteiro permanece
Há um apelo quase universal na ideia de recomeçar em outro lugar. Acreditamos que um novo emprego, uma nova cidade ou um novo relacionamento trarão consigo uma nova versão de nós mesmos. Empacotamos os objetos, despedimo-nos do que nos é familiar e partimos com a esperança de que a geografia externa possa redesenhar nossa geografia interna. No entanto, a bagagem mais pesada é aquela que não se vê. Viaja conosco, silenciosa e soberana: nossa estrutura de funcionamento.
As dinâmicas que nos levaram ao esgotamento no trabalho anterior encontram eco no novo escritório, ainda que sob pretextos diferentes. A carência que minou um relacionamento ressurge no próximo, disfarçada de um novo tipo de demanda. Os personagens e os cenários são substituídos, mas o enredo principal, aquele que se desenrola dentro de nós, insiste em se repetir. Percebemos, com algum desalento, que éramos o denominador comum em todas as equações.
O verdadeiro ato de recomeçar não é um deslocamento físico, mas um reposicionamento interior. A liberdade não está em encontrar o ambiente perfeito, imune aos nossos gatilhos, mas em desenvolver a capacidade de responder de uma nova forma, independentemente do cenário. É um trabalho menos sobre encontrar a porta de saída e mais sobre construir uma nova maneira de habitar qualquer sala em que estejamos. A paisagem só muda de verdade quando a forma como olhamos para ela se transforma.
Extraído de
Volume I — Consciência
Capítulo 2 — O Peso da Repetição