O atrito que nos consome antes da partida
Existe um tipo de exaustão que não vem do esforço, mas do atrito. É a energia gasta não em avançar, mas em lutar contra si mesmo. A força que poderia impulsionar um projeto é queimada na fricção entre o que sentimos e o que nos forçamos a demonstrar; entre a realidade como ela se apresenta e a nossa resistência a ela; entre quem somos em essência e a personagem que acreditamos precisar ser.
Este atrito interno gera um calor que dissipa nossa potência vital. É como conduzir um veículo com o travão de mão acionado. O motor ruge, o combustível é queimado, mas o movimento é lento, sofrido e desgastante para todo o sistema. Perguntamo-nos por que nos sentimos tão cansados sem ter chegado a lugar algum. A energia foi consumida antes mesmo da partida, na tensão que antecede a ação.
A liberdade interior floresce quando aprendemos a soltar esse travão. Isso implica um exercício de alinhamento e aceitação. Alinhar a expressão com o sentimento; aceitar a realidade para poder agir sobre ela, em vez de contra ela. Ao reduzir o atrito interno, a mesma quantidade de energia que antes mal conseguia mover-nos do lugar torna-se uma força serena e poderosa, pronta para ser canalizada para a criação, para o movimento, para a vida que nos espera para além da resistência.
Extraído de
Volume I — Consciência
Capítulo 2 — O Peso da Repetição