O Abrigo Inerte da Palavra Quebrada
Há um conforto peculiar em abandonar a si mesmo no primeiro obstáculo. A decisão, tão clara na mente, encontra a resistência do mundo e, nesse ponto, recuar para a queixa parece mais seguro do que sustentar a escolha. É a troca da autoria pela familiaridade do papel de vítima. Nesse lugar, a responsabilidade é do outro, da circunstância, do destino. A palavra dada a si mesmo se quebra, mas em seu lugar surge uma justificativa que alivia, momentaneamente, o peso de ser o autor do próprio caminho.
Esse abrigo, porém, é frágil e custa caro. Cada vez que a palavra interna é silenciada pelo desconforto, a confiança em si mesmo se erode. A liberdade que poderia nascer do ato de assumir a consequência é trocada pela prisão de uma narrativa onde não se tem poder. Sustentar a palavra não é um ato de heroísmo, mas um gesto silencioso de maturidade: a aceitação de que o caminho escolhido terá atritos e que a paz real não está na ausência de problemas, mas em responder por eles.
Extraído de
Volume II — Responsabilidade e Escolha
Capítulo 16 — Sustentar a Própria Palavra