O Abrigo da Consequência Alheia

Há um refúgio sutil na posição de quem se deixa levar pelos acontecimentos. Não se trata de um protesto, mas de uma renúncia silenciosa à autoria. Diante do desconforto inerente a ter que escolher — e, portanto, perder —, a inércia pode se apresentar como um lugar seguro. Nele, a pessoa não precisa arcar com o peso da despedida que toda decisão carrega, atribuindo as consequências ao tempo, às condições, aos outros. A responsabilidade é terceirizada e a dor da escolha, evitada. Esse aparente conforto, contudo, tem um custo existencial profundo: a vida deixa de ser uma narrativa própria para se tornar um roteiro recebido. A liberdade que nasce de assumir o leme é trocada pela segurança passiva de quem é apenas passageiro. Assumir a responsabilidade adulta é compreender que a dor da renúncia é inseparável da autoria, o reconhecimento de que se está, de fato, escolhendo um caminho em vez de apenas recebê-lo.

Extraído de

Volume II — Responsabilidade e Escolha

Capítulo 4 — Decisão Também Dói