Entre o conforto da jaula e a vertigem do céu aberto

Há uma estranha segurança na dor que se repete. O padrão destrutivo, por mais nocivo que seja, oferece um roteiro. Conhecemos as cenas, as falas, os personagens e o desfecho amargo. Essa previsibilidade, embora dolorosa, confere uma sensação ilusória de domínio sobre a própria vida. Sabemos exatamente o que esperar e, nessa certeza, encontramos uma forma peculiar de conforto. É a quietude da estagnação, confundida com a paz.

Romper com esse ciclo é abdicar desse roteiro. É entrar em cena sem falas preparadas, diante de um horizonte desconhecido. O novo não vem com garantias; ele se apresenta como um espaço aberto e, por isso mesmo, vertiginoso. A instabilidade temporária que acompanha a quebra de um padrão é o preço da liberdade. É a vertigem de quem salta da jaula e, pela primeira vez, sente o peso e a imensidão do céu, com toda a sua beleza e seus riscos.

A escolha, portanto, raramente se dá entre um caminho de dor e um de facilidade. A escolha real, mais madura e profunda, é entre a segurança de um sofrimento conhecido e a vulnerabilidade inerente a toda possibilidade de crescimento. É preciso tolerar o desconforto de não saber, de aprender a voar em pleno voo, de confiar que a instabilidade é apenas o prelúdio para encontrar um equilíbrio novo, mais amplo e autêntico. A liberdade interior não é ausência de medo, mas a decisão de seguir apesar dele, atraído não pela certeza do chão, mas pela promessa do horizonte.

Extraído de

Volume I — Consciência

Capítulo 2 — O Peso da Repetição

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