Devolver a dor ao seu verdadeiro dono
A busca incessante por justificação é uma sutil tentativa de transferência. Buscamos no outro um alívio para o fardo que pertence à nossa decisão, como se a concordância alheia pudesse anestesiar o desconforto que é nosso. Queremos que o outro não apenas entenda, mas que nos absolva da dor de sustentar o que escolhemos ser, fazendo dele o cuidador de uma ferida que nós mesmos abrimos ao tomar um novo rumo.
Assumir a autoria da própria vida é também reclamar a posse dessas consequências emocionais. A maturidade se revela nesse silêncio: o momento em que se para de terceirizar o incômodo. A dor do julgamento, a melancolia de um afastamento, a solidão de um caminho novo — tudo isso é parte integrante da escolha, não um erro a ser corrigido pela aprovação externa. É nesse acolhimento silencioso que a responsabilidade deixa de ser um discurso e se torna corpo, e a liberdade se encontra, não na ausência de dor, mas na coragem de senti-la como sua.
Extraído de
Volume II — Responsabilidade e Escolha
Capítulo 14 — Não Se Explicar para Todos