As Portas, e Não os Muros, da Alma

A dor, quando profunda, nos ensina a arquitetura do medo. A primeira lição parece simples: construir muros. Um muro é uma declaração absoluta, um perímetro que isola e define o que não pode entrar. É uma solução drástica que, ao proteger de novas feridas, também impede a entrada da luz, do ar, de qualquer nova possibilidade de vínculo.

Amadurecer é aprender a trocar os muros por portas. Uma porta é um instrumento de discernimento. Ela pressupõe um limite, mas oferece a soberania da escolha. Quem está diante dela pode bater, e quem está dentro pode decidir se, quando e como abrir. A porta permite uma aproximação gradual, uma observação cuidadosa. Ela é a materialização da fronteira saudável, que protege sem aprisionar.

Retomar a posse dessas portas é um ato de liberdade interior. Significa confiar não na ausência de risco lá fora, mas na própria sabedoria para gerir o acesso ao nosso mundo íntimo. É entender que a vulnerabilidade não é manter-se escancarado, mas saber manusear as chaves do próprio ser, permitindo a troca, a conexão e a experiência, com a consciência de quem se é e do que se precisa para florescer em segurança.

Extraído de

Volume I — Consciência

Capítulo 5 — Dor Não É Identidade

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