A tranquila inércia de não ser autor
Há uma estranha segurança em se perceber como alvo das circunstâncias ou da vontade alheia. Nesse lugar, não somos nós que erramos o traçado, mas o outro que invadiu o mapa. A posição de vítima, ainda que dolorosa, oferece um álibi para a inação. Ela nos isenta da tarefa adulta e solitária de escolher o que toleramos e o que findamos, transferindo para o mundo a responsabilidade por nosso bem-estar.
Assumir a autoria da própria vida passa, invariavelmente, por esse gesto de demarcação. O limite não é uma agressão ao outro, mas uma afirmação de si — um ato que nos retira do confortável papel de consequência e nos lança ao centro da nossa existência como causa. É a coragem de dizer não apenas 'até aqui', mas 'a partir daqui, sou eu quem responde'. Essa escolha nos devolve a liberdade, mas também o peso íntegro das nossas decisões, um fardo que o vitimismo tão convenientemente nos poupava.
Extraído de
Volume II — Responsabilidade e Escolha
Capítulo 3 — Limite Não É Agressão