A topografia silenciosa do que restou

Depois das cinzas, a perda não é um evento que observamos de uma distância segura. É uma alteração no relevo da alma. O que antes era sólido, com forma e lugar no mundo externo, agora se torna um território interior coberto por elas, um vale de silêncio ou uma planície vazia que precisamos atravessar. A memória do que se foi não é um arquivo que acessamos, mas a própria atmosfera desse novo lugar: o pó fino do que ardeu e que agora respiramos.

Habitar este mapa redesenhado — o cenário do depois das cinzas — não exige pressa, mas presença. É um caminhar lento sobre um chão refeito, onde percebemos a textura do que sobrou e o contorno das ausências. É nesse percurso, e não num destino, que a revelação acontece: não como um clarão, mas como a lenta percepção da luz que entra por onde algo deixou de estar. Ali, nesse solo cinzento, descobrimos o que era apenas cenário e o que, de fato, nos constituía de uma forma que nem o fogo consegue apagar.

Extraído de

Depois das Cinzas

Capítulo 4 — O Que as Cinzas Representam