A Quietude Vigiada

Existe uma paz que se assemelha ao silêncio de uma fortaleza vazia. Acreditamos tê-la conquistado quando, na verdade, apenas expulsamos a vida para evitar o ruído. Essa quietude não é serenidade, mas vigilância. É o resultado de um estado de alerta tão internalizado que se confunde com o normal, um cansaço crônico que se disfarça de prudência.

Nesse território interior, cada aproximação é submetida a um interrogatório silencioso, cada gesto é traduzido pela gramática do risco. A mente se torna uma sentinela que nunca dorme, patrulhando as fronteiras do eu para impedir uma nova invasão. Essa defesa constante, que promete segurança, consome a energia vital que seria usada para criar, conectar-se e expandir.

A verdadeira estabilidade não se encontra na ausência de movimento, mas na capacidade de navegar por ele. A paz interior floresce quando a guarda é baixada, não por ingenuidade, mas por confiança na própria capacidade de discernir, de se curar e de continuar. É a diferença entre um silêncio estéril e uma calma que respira, viva e permeável.

Extraído de

Volume I — Consciência

Capítulo 5 — Dor Não É Identidade

Compartilhe esta reflexão