A quietude que encerra ciclos
Confundimos, por muito tempo, a força com a capacidade de suportar o peso. Acreditamos que a resiliência se media pela quantidade de golpes que uma alma podia absorver sem se partir. Carregamos o estandarte do 'eu aguento' como uma medalha de honra, sem perceber que, em muitos casos, era apenas o distintivo de uma teimosia que nos mantinha acorrentados ao mesmo lugar.
A verdadeira força, no entanto, raramente faz ruído. Ela não se anuncia em declarações dramáticas ou em rupturas espetaculares. Manifesta-se no silêncio de uma decisão interna: a de não mais oferecer justificativas para o que nos esgota, a de não mais emoldurar a dor com poesia barata. É o momento em que, sem plateia, decidimos parar de empurrar a pedra morro acima, não por fraqueza, mas por consciência de que aquela não é a nossa montanha.
Encerrar o que já terminou por dentro é um ato de profunda inteligência existencial. É redirecionar a energia, antes gasta na manutenção de uma fachada de resistência, para a delicada arquitetura de um novo espaço interno. Este movimento não exige aprovação ou entendimento externo; ele se basta em sua própria coerência. E é nesse silêncio que o cansaço de ser quem não se é mais começa, finalmente, a dar lugar ao repouso de simplesmente ser.
Extraído de
Volume I — Consciência
Capítulo 2 — O Peso da Repetição