A queixa como refúgio da escolha

Há uma forma sutil de se isentar da própria vida: tornar-se indispensável aos outros. O sim contínuo, a disponibilidade irrestrita, criam a ilusão de uma agenda governada pelo externo, onde não há espaço para si. A queixa sobre o cansaço e a falta de tempo se torna o álibi perfeito. Apresentamo-nos como vítimas das circunstâncias, sobrecarregados por demandas que parecem ter brotado do nada. É um lugar falsamente confortável. No entanto, cada sim foi uma escolha, ainda que automática. É a recusa em reconhecer essa autoria que alimenta o vitimismo. É mais simples lamentar a invasão alheia do que assumir a responsabilidade pela própria porta aberta. Assumir-se como autor da própria sobrecarga é um ato de maturidade silenciosa. Implica abandonar a narrativa do sacrifício para encarar a consequência de não ter escolhido, de não ter traçado o próprio limite. A liberdade não está em ter um dia vazio, mas em ser o curador do que o preenche.

Extraído de

Volume II — Responsabilidade e Escolha

Capítulo 11 — O Fim da Disponibilidade Excessiva