A paisagem muda, o eco permanece
Existe uma esperança quase infantil na mudança de cenário. Atribuímos ao ambiente — à geografia física e humana que nos cerca — a responsabilidade pela nossa ressonância interna. Se a melodia da vida soa dissonante, concluímos que a sala de concertos é inadequada. Buscamos, então, uma nova acústica, um novo palco para a nossa existência.
No entanto, para onde quer que vamos, somos nós a fonte do som. O desassossego, a insatisfação ou o vazio não são propriedades do local, mas vibrações que emitimos e que encontram, em cada novo cenário, apenas uma nova parede para ecoar. O que nos retorna é o som original, talvez com uma nova textura, uma nova frequência, mas inconfundivelmente nosso. O novo emprego, a nova cidade, o novo amor tornam-se superfícies de reflexão para o que ainda não foi harmonizado em nós.
A persistência desse eco não é um fracasso, mas um diagnóstico. É um convite para silenciar o ruído externo e auscultar a própria melodia. A verdadeira liberdade não está em encontrar um lugar onde nosso som perturbador não possa ecoar, mas em transformar a natureza da canção que brota de nós. O trabalho é afinar o instrumento, não fugir da orquestra.
Extraído de
Volume I — Consciência
Capítulo 1 — O Começo é Interno