A memória como cicatriz, não como sentença

Existe uma diferença sutil, mas fundamental, entre carregar uma cicatriz e cumprir uma sentença. A cicatriz é a prova de que uma ferida existiu e que o corpo, em sua sabedoria, encontrou uma forma de se fechar e continuar. É uma marca da história, um testemunho silencioso de resiliência. A sentença, por outro lado, é um veredito que define o futuro a partir de um ato do passado. Ela presume um castigo contínuo.

Quando permitimos que a dor se transforme em nossa identidade, estamos, na prática, sentenciando a nós mesmos. O 'eu' passa a ser 'aquele que foi ferido', e todas as ações futuras são condicionadas por essa definição. A vida se torna o cumprimento de uma pena autoimposta, onde a liberdade condicional parece ser o máximo de autonomia que podemos almejar. A desconfiança, a defensiva e a retração não são mais escolhas, mas parte do protocolo da sentença.

O caminho para a liberdade interior começa ao reinterpretar essa relação com a memória. É preciso aprender a tocar a cicatriz não como quem toca uma ferida aberta, mas como quem reconhece um trecho do próprio mapa. É o exercício de separar o evento da sua interpretação. O que aconteceu é um fato imutável, mas o significado que atribuímos a ele — e o poder que ele terá sobre os nossos dias — permanece sob nossa jurisdição. Respeitar o que doeu é validar a história; obedecer à dor é abrir mão do futuro.

Extraído de

Volume I — Consciência

Capítulo 5 — Dor Não É Identidade

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