A liberdade de não ser juiz
Manter a figura de um culpado absoluto, seja ele outro ou nós mesmos, é um trabalho exaustivo. Exige uma vigilância constante, uma ruminação incessante dos eventos, um reavivamento perpétuo da mágoa ou da vergonha. É como carregar uma pedra pesada, acreditando que o seu peso é a única prova de que a justiça, ainda que amarga, está sendo mantida.
Quando a premissa 'não haverá crescimento real' se instala em nossa consciência, somos convidados a considerar o impensável: soltar a pedra. O que acontece no espaço que se abre? À primeira vista, pode parecer um vazio perigoso, uma anistia inaceitável. Mas, com o tempo, esse espaço revela sua verdadeira natureza: é um campo de possibilidades.
A energia antes devotada ao julgamento fica, então, disponível. Disponível para a observação, para a compreensão, para o luto e, finalmente, para a criação. Libertar o outro (ou a nós mesmos) do posto de 'culpado absoluto' não é um ato de negação, mas de profunda afirmação da vida. É a decisão madura de que o nosso crescimento interior é mais valioso do que a nossa necessidade de estar certo ou de punir. É trocar o papel de juiz pelo de aprendiz, e essa troca é o portal para qualquer recomeço genuíno.
Extraído de
Volume I — Consciência
Capítulo 3 — A Ilusão da Culpa