A lealdade a uma identidade que já não nos serve
Mais sutil que o aprisionamento ao fato é a lealdade à identidade que o fato gerou. Quando uma experiência avassaladora nos marca, uma versão de nós mesmos nasce para lidar com a situação: a versão que se sentiu inadequada, a que se fechou por medo, a que aprendeu a não confiar. O perigo não reside apenas na memória do evento, mas na sobrevivência desse 'eu' reativo, que continua a operar no presente como um fantasma, tomando decisões em nosso lugar.
Mantemos essa versão viva por um senso distorcido de fidelidade ou proteção. Acreditamos que ela nos mantém seguros, pois conhece a dor e sabe como, supostamente, evitá-la. Contudo, essa proteção é uma jaula. Ela nos impede de experimentar o novo, filtra a realidade através da lente da ferida antiga e nos condena a repetir os mesmos padrões de defesa, mesmo quando a ameaça já não existe. Viver sob sua regência é desistir da possibilidade de ser inteiro.
O recomeço interior passa por um diálogo honesto com esse eu do passado. Exige reconhecer seu papel, agradecer por sua tentativa de nos proteger e, então, gentilmente, dispensá-lo de sua função. É um ato de integração, não de aniquilação. É entender que aquela faceta foi uma resposta a uma circunstância, não a totalidade do nosso ser. Liberar-se dessa lealdade é permitir que um novo eu, moldado pela sabedoria e não apenas pela dor, possa finalmente emergir e respirar.
Extraído de
Volume I — Consciência
Capítulo 5 — Dor Não É Identidade