A Geografia Silenciosa Depois das Cinzas

Depois das cinzas de um vínculo, há um momento em que a ausência deixa de ser uma ferida aberta e se torna um fato geográfico na nova paisagem da alma. Não se trata de apagar o que houve, mas de reconhecer o terreno devastado e o lugar que a falta agora ocupa nele. Algumas presenças, antes centrais como sóis, são movidas para a periferia do nosso mapa afetivo. É um remanejamento silencioso que fazemos por dentro, a aceitação de que certas estradas foram consumidas pelo fogo e não nos levarão mais ao mesmo lugar.

Esse movimento não nasce da amargura, mas da clareza que só emerge ao se observar o que restou. Continuamos a ver a pessoa, talvez, mas a expectativa de amparo se dissolve como fumaça. É a quietude de quem entende que o calor não virá mais daquela direção e, por isso, aprende a se aquecer com as brasas dos que se mantiveram ao lado, firmes entre os destroços. As cinzas não ensinam a esquecer, mas a reorganizar o nosso universo interior, onde a verdadeira presença, aquela que resiste ao fim, encontra seu justo e perene valor.

Extraído de

Depois das Cinzas

Capítulo 8 — Quando a Ausência Também Ensina