A Geografia Depois das Cinzas

O instante que sucede o impacto não traz apenas a dor do que se foi, mas a estranheza do que ficou. O 'eu' que existia um momento antes, com suas certezas, ardeu. Agora, buscamos em nosso interior os caminhos familiares, mas encontramos uma paisagem silenciada sob as cinzas, um mapa que perdeu a validade. Não é fragilidade; é desorientação topográfica. O solo que pisamos é novo, feito dos destroços do que éramos.

Este território, o nosso *depois das cinzas*, não é um vazio, mas um espaço reconfigurado pela ausência. Aprender a habitá-lo exige um tempo que não se mede em dias. É um exercício de observação silenciosa, de tatear os novos contornos de si mesmo sem a pressa de limpar ou reconstruir. É perceber que, antes de qualquer broto verde, existe um período de permanência nesta fuligem que agora nos constitui.

Extraído de

Depois das Cinzas

Capítulo 2 — O Primeiro Impacto da Perda