A Fronteira Redescoberta do Olhar
Por muito tempo, o eu se define pela sua capacidade de sustentação. Olhar para si era inventariar as cargas alheias que repousavam sobre os próprios ombros, confundindo identidade com a função de ser esteio. O primeiro movimento da evolução interior não é um ato de rebeldia, mas de arqueologia: escavar a si mesmo sob o peso acumulado. Esse processo, um dos eixos centrais da nossa evolução interior, exige um ajuste silencioso na percepção. Não se trata de abandonar o cuidado, mas de reencontrar o próprio contorno, de perceber onde termina o corpo e onde começa o que não é seu. É a redescoberta da fronteira pessoal, onde o olhar aprende a discernir a presença genuína da absorção exaustiva. A imagem que antes era de pura função revela, enfim, uma existência com centro de gravidade próprio. E reconhecer-se autônomo, com limites e necessidades de respiração, talvez seja a fundação de toda evolução interior genuína.
Extraído de
Volume III — Evolução Interior
Capítulo 10 — Você Não Precisa Carregar Tudo