A Distância Entre a Leitura e os Ombros
A mente compreende a lógica de não carregar pesos que não são seus com nitidez quase imediata. A leitura oferece um alívio teórico, mas essa dissociação entre o que se entende e o que se sente é um dos paradoxos da evolução interior. O corpo guarda a memória de outras jornadas, um hábito muscular treinado para sustentar o que não lhe pertence, e essa memória não cede apenas ao comando da razão. O entendimento é a semente; seu cultivo, a verdadeira obra da transformação, acontece no solo complexo das rotinas, onde as velhas forças ainda operam.
A travessia real ocorre nesse espaço entre o que a mente descobre e o que o corpo precisa desaprender. Essa é a matéria-prima da evolução interior: um movimento silencioso, que não se revela na epifania da leitura, mas na prática miúda e constante de devolver, um a um, os fardos que os ombros se acostumaram a chamar de seus. É notar a ausência do peso e, em vez de preenchê-la por costume, aprender a habitar o espaço expandido que essa mesma evolução nos confere.
Extraído de
Volume III — Evolução Interior
Capítulo 10 — Você Não Precisa Carregar Tudo