A cicatriz como mapa, não como território.
Nosso mundo interior pode ser visto como uma vasta geografia, com suas planícies de serenidade, montanhas de conquistas e também seus desfiladeiros, talhados por perdas e dores. As feridas são isso: marcas topográficas na paisagem da nossa alma. Elas contam uma história, indicam por onde passamos e o que sobrevivemos. Negá-las seria como apagar uma parte do nosso próprio mapa, perdendo referências essenciais sobre nossa jornada.
O equívoco fundamental ocorre quando confundimos uma marca no mapa com a totalidade do território. Viver como se fôssemos a própria ferida é como decidir construir uma morada permanente no fundo do desfiladeiro mais escuro, esquecendo que há um continente inteiro de vida para além dele. É acreditar que a geografia da nossa existência se resume àquele ponto de dor, ignorando as florestas de potencial e os oceanos de afeto que também nos constituem.
A verdadeira maturidade não está em ostentar um mapa sem marcas, mas em saber lê-lo com sabedoria. Reconhecer o desfiladeiro, honrar a história de sua formação e, ainda assim, escolher continuar a jornada. Recomeçar por dentro é assumir a identidade do explorador, não a do acidente geográfico. É entender que a cicatriz documenta uma passagem, mas quem define o destino e a vastidão da viagem somos nós.
Extraído de
Volume I — Consciência
Capítulo 5 — Dor Não É Identidade