A arquitetura invisível que nos habita

Vivemos em nós mesmos como quem habita uma casa antiga, construída há muito tempo. Conhecemos seus ruídos, os pontos onde o piso range, as janelas que emperram com a chuva. Acostumamo-nos a esses detalhes a ponto de não mais os percebermos como escolhas de engenharia, mas como a natureza inevitável da própria casa. Nossas reações automáticas — a defesa rápida, o recuo silencioso — são como esses rangidos. São estruturas internas, erguidas em algum momento para nos proteger, e que hoje compõem a arquitetura invisível de nossa personalidade.

O problema não reside na existência dessas estruturas. Uma casa precisa de paredes e de um teto. A questão emerge quando nos tornamos prisioneiros de um layout que já não serve às nossas necessidades atuais, sem sequer nos darmos conta de que somos os arquitetos. Continuamos a desviar de uma viga baixa que poderíamos remover, a usar uma porta estreita quando poderíamos criar um vão mais amplo. Acreditamos estar nos movendo livremente, mas nossos caminhos são, na verdade, pré-definidos por uma planta que nunca paramos para examinar.

Recomeçar por dentro é como acender uma luz no porão dessa casa. É o ato de desenrolar as plantas originais, não para julgar o construtor do passado — nós mesmos, em uma versão mais jovem e com outros recursos —, mas para compreender as fundações sobre as quais nos equilibramos. A maturidade está em reconhecer que, embora a estrutura já exista, temos a permissão e a responsabilidade de iniciar uma reforma. Não para demolir, mas para adaptar, para abrir janelas onde antes havia muros, permitindo que a luz e o ar de uma nova consciência circulem.

Extraído de

Volume I — Consciência

Capítulo 1 — O Começo é Interno

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