A arquitetura da memória e a liberdade de reformar
Com o tempo, esquecemos que vivemos em um abrigo. Passamos a acreditar que é nossa única casa possível. Pintamos suas paredes com a tinta da familiaridade, decoramos seus cômodos com a mobília da resignação e, por fim, confundimos a estrutura com a nossa própria essência. A frase 'eu sou assim' é a placa de bronze na fachada desse edifício, declarando-o um patrimônio histórico e imutável. Passamos a defender suas paredes sem lembrar que fomos nós que as erguemos.
A verdadeira maturidade não exige a demolição do passado, mas a coragem de ser o arquiteto do presente. Trata-se de um trabalho de reforma consciente: revisitar as plantas originais — aquelas interpretações nascidas sob pressão — e perguntar se ainda servem ao morador que nos tornamos hoje. Significa abrir janelas onde antes havia muros de proteção, ampliar cômodos que se tornaram pequenos demais e, talvez, perceber que o que antes era um refúgio seguro agora impede a visão da paisagem.
Extraído de
Volume I — Consciência
Capítulo 2 — O Peso da Repetição